Observações sobre a cor, 2026

Forêt de Soignes, Bruxelles, 2026
“Dirt path strewn with fallen leaves, between dark-foliaged trees on the left and yellow trees on the right; three people walking in the distance.”

I

Não conseguimos descrever uma cor até ao fim, mas podemos dar-lhe um nome, um número ou um prompt, para a recuperarmos mais tarde do cérebro ou de alguma memória exterior. O que regressa, porém, nunca é bem aquela cor, mas uma vizinha. Não há perceção da cor sem luz artificial ou natural, neste caso, sem a luz da madrugada, da manhã, do meio-dia, da tarde ou do anoitecer. Os tons que conseguimos distinguir, numa policromia ou numa monocromia (as suas qualia), são mais do que alguma vez poderíamos contar, e as palavras que temos para os descrever são poucas e imprecisas. São quase-palavras: códigos hexadecimais, nomes de catálogo, a hesitação de «uma espécie de verde». Os olhos diferem, e a atenção também. Um pintor, um botânico ou um impressor distingue mais tons do que um caminhante distraído, não porque os seus olhos sejam melhores, mas porque treinou o olhar. Para lá de tudo isto, guardamos memórias pessoais, familiares e sociais das cores e das suas tonalidades, que fazem parte de uma conversa sem fim, como a que tive comigo mesmo recentemente no Bois de la Cambre, em Bruxelas.

II

Porque existem as cores e a profusão de tons que as acompanha? E porque mudam estes ao longo da vida, a de uma planta, por exemplo? Porque a matéria absorve parte da luz e devolve o resto, e é o que devolve que dá visibilidade e cor. À medida que a planta muda de química, muda também a luz que devolve: do verde viçoso da primavera, passando pela policromia sensual das flores e dos frutos do verão, aos amarelos, vermelhos e ocres do outono, e ao castanho escuro e húmido do regresso à terra. Poderia esta sucessão ser invertida? Numa mesma folha, não. Mas o ciclo fecha-se: da terra escura nasce outro verde.

III

As cores servem e agradam, sobretudo a quem as vê de modo diferencial. Não são apenas propriedades das coisas, mas sobretudo encontros entre a luz, as superfícies e os olhos: configurações da matéria sob o impacto de uma luz sempre parcialmente refletida, que o cérebro, a aprendizagem, o instinto e a intenção permitem distinguir e, mais tarde, nomear. O castanho é o caso extremo: um laranja escuro que, por contraste, vemos como castanho. Não há semáforos castanhos. Sendo a cor do fim do outono, é a mais diferencial de todas. De noite, todos os gatos são pardos.

IV

Abelhas e borboletas veem no ultravioleta o que nós não vemos; as máquinas vão mais longe. Ensinámos algumas máquinas a registar a luz e a cor, de uma maneira fria e sem emoção que se saiba. Consoante os sensores de que as dotamos, veem menos ou mais cores do que nós, e esta elasticidade sensorial indireta alarga o nosso mundo sensível. Mas a máquina não se limita a registar: decide. A câmara do meu telemóvel não guarda a luz que recebe; aplica-lhe uma paleta, por exemplo um filtro «estilo Leica», e escolhe o que passa por branco. Poderão um dia as máquinas inteligentes passar a pensar a luz e a cor, e a modulá-las para nós de forma autónoma, para lá da compreensão e decisão humanas convencionais?

V

Uma Caixa Negra, na definição de Ross Ashby, é um sistema de que só conhecemos o que entra e o que sai. «Negra» quer dizer de interior desconhecido. Imaginemos que nela não entra luz: dentro dela não há então cor, porque não há encontro entre a luz e as coisas, quaisquer que elas sejam. Mas isso não nos autoriza a dizer que o seu interior seja negro. Atribuir a cor negra ao que é invisível e indeterminado é uma proposição sem sentido. A Caixa Negra será talvez um universo sem memória da luz. Aqui, o melhor é suspender juízos e convicções.

VI

Ao abrirmos a Caixa Negra, ela deixa de o ser: dá-se a conhecer, e torna-se por isso uma Caixa de Pandora! O que de material nela exista ilumina-se e ganha individualidade sob o banho de luz que a invade num ápice e ao qual reage, diante do nosso olhar ou de sistemas de visão que discriminam os objetos por toda a gama eletromagnética, de que a cor visível é uma pequena parte. A forma aparece; a cor exerce o seu poder de atração.

VII

Numa noite sem Lua, os objetos não ficam negros: ficam sem claridade. Têm forma, mas nós, humanos, não os vemos. Outros olhos, os dos gatos, por exemplo, e os sensores térmicos, sim.

VIII

As paisagens próximas são em muitos casos fruto da ação humana: desenhadas, mantidas, usufruídas. Mas são também ecossistemas complexos, que mantêm, apesar do desenho deliberado, a capacidade de nos surpreender a cada primavera, verão, outono e inverno. A Forêt de Soignes, em Bruxelas, à qual está ligado o Bois de la Cambre, é um lugar onde ganhei o hábito de passear, pensar, fotografar e respirar um ar menos poluído. A menos de meia hora de casa, posso sentir o cheiro da terra e observar as cores subjetivas da natureza e das suas metamorfoses. Sem dramas. Alimentando a minha alma, que também não tem definição.

Forêt de Soignes, Bruxelles, 2026
White horse grazing, head lowered, in black and white; dark patches on its coat, with grass and tree trunks behind.

Remarks on colour, 2026

ACP

I

We cannot describe a colour all the way to the end, but we can give it a name, a number or a prompt, so that we can retrieve it later from the brain or from some external memory. What comes back, however, is never quite that colour, but a neighbour of it. There is no perception of colour without artificial or natural light, the latter being the light of dawn, morning, noon, afternoon or dusk. The tones we can tell apart, in a polychromy or a monochromy (their qualia), are more than we could ever count, and the words we have to describe them are few and imprecise. They are quasi-words: hexadecimal codes, catalogue names, the hesitation of “a sort of green”. Eyes differ, and so does attention. A painter, a botanist or a printer tells apart more tones than a distracted walker, not because their eyes are better, but because they have trained their gaze. Beyond all this, we keep personal, family and social memories of colours and their shades, which are part of a never-ending conversation, like the one I recently had with myself in the Bois de la Cambre, in Brussels.

II

Why do colours exist, and the profusion of tones that comes with them? And why do these change over a lifetime, a plant’s, say? Because matter absorbs part of the light and gives back the rest, and what it gives back is what gives visibility and colour. As the plant’s chemistry changes, so does the light it gives back: from the lush green of spring, through the sensual polychromy of summer flowers and fruit, to the yellows, reds and ochres of autumn, and the dark, damp brown of the return to earth. Could this succession be reversed? Not in a single leaf. But the cycle closes: from the dark earth, another green is born.

III

Colours serve and please, above all those who see them differentially. They are not only properties of things, but above all encounters between light, surfaces and eyes: configurations of matter under the impact of a light that is always partially reflected, which the brain, learning, instinct and intention allow us to tell apart and, later, to name. Brown is the extreme case: a dark orange that, by contrast, we see as brown. There are no brown traffic lights. Being the colour of late autumn, it is the most differential of them all. At night, all cats are grey.

IV

Bees and butterflies see in the ultraviolet what we cannot; machines go further. We have taught some machines to record light and colour, coldly and, as far as we know, without emotion. Depending on the sensors we give them, they see fewer or more colours than we do, and this indirect sensory elasticity widens our sensible world. But the machine does not merely record: it decides. My phone’s camera does not keep the light it receives; it applies a palette to it, a “Leica-style” filter, for instance, and chooses what passes for white. Will intelligent machines one day go on to think about light and colour, and to modulate them for us autonomously, beyond conventional human understanding and decision?

V

A Black Box, as Ross Ashby defined it, is a system of which we know only what goes in and what comes out. “Black” means: of unknown interior. Let us imagine that no light enters it: inside, there is then no colour, because there is no encounter between light and things, whatever they may be. But this does not entitle us to say that its interior is black. To attribute the colour black to what is invisible and undetermined is a proposition without sense. The Black Box may perhaps be a universe with no memory of light. Here, the best course is to suspend judgements and convictions.

VI

When we open the Black Box, it ceases to be one: it makes itself known, and so becomes a Pandora’s Box! Whatever material it holds lights up and takes on an individuality in the bath of light that floods it in an instant, and to which it reacts, before our gaze or before vision systems that tell objects apart across the whole electromagnetic range, of which visible colour is only a small part. Form appears; colour exerts its power of attraction.

VII

On a moonless night, objects do not turn black: they are left without light. They have form, but we humans cannot see them. Other eyes can, a cat’s, say, and so can thermal sensors.

VIII

Nearby landscapes are in many cases the product of human action: designed, maintained, enjoyed. But they are also complex ecosystems, which keep, despite their deliberate design, the capacity to surprise us with every spring, summer, autumn and winter. The Forêt de Soignes (the Sonian Forest) in Brussels, to which the Bois de la Cambre is attached, is a place where I have acquired the habit of walking, thinking, photographing and breathing less polluted air. Less than half an hour from home, I can smell the earth and observe the subjective colours of nature and its metamorphoses. No drama. Feeding my soul, which also has no definition.

Forêt de Soignes, Bruxelles, 2026
Cabana em tempos destinada ao repovoamento de pássaros
A shed once meant for a bird repopulation project

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